quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Uma outra forma de olhar

E Agosto é todo o ano para mim
"Senhor, lembro-Te  os emigrantes.

Voltam em Agosto.
Olhamo-los e dizemos «eles».

Partiram e sabemos a razão.

Porque sonharam outra vida.
Sem pés descalços,
sem quilómetros a pé,
sem carregos à cabeça
sem a malga de barro onde escorria a seiva e donde se sorvia então um caldozito.

Voltam para dizer aqui a dignidade.

Voltam todos os anos em Agosto.
Carros enormes
e vestidos de outro jeito.

Voltam para casar.
Para baptizar os filhos naquela mesma igreja.
Voltam para ir a Fátima.
Voltam e existem.

Em Agosto revelam-se desejos e mistérios guardados todo o ano.

Palavras como berço, regresso, reeencontro.

Senhor, ensina-nos os gestos solidários
que lhes digam quanto os esperámos
nesta
e noutras terras que são suas.

Pressinto que todo o ano eles sentem como o poeta:

E ainda hoje, vou com o vento balouçando.
E Agosto é todo o ano para mim."

Maria Teresa Frazão

2 comentários:

Briseis disse...

Ui... Quem me dera saber fazer isso... Em vez disso, passo o tempo todo a amaldiçoá-los por transformarem a minha terrinha pacata num inferno de grandes carros e gente mal-vestida que atravessa a rua onde não deve e entope passeios.
Mea culpa.

Fabi disse...

Briseis...este é o outro lado da coisa. Pensemos assim e talvez consigamos suportar melhor a balbúrdia em que isto se transforma em Agosto =P